Sábado, Março 31, 2012

O CAVALO LOUCO

Imagem dos cadernos de Vânia Medeiros


Eu não sei como puxar as rédeas
do cavalo louco em que estou montada.

Tanto tempo eu demorei em ter coragem
de montar este cavalo e só agora
é que descubro a existência destas rédeas
que não sei como puxar.

O cavalo, mesmo louco, também fala
minha língua e, de vez em quando,
olha pra mim e grita:
“pelo amor de deus, faz-me parar um pouco”.

Mais a frente, há uma autopista,
e, se eu não puxar as rédeas do cavalo louco,
talvez uma caminhonete atropele a gente
ou atropelemos uma bicicleta.

Ou talvez sejamos salvos por uma mão misteriosa...

Mas quem terá coragem de puxar as rédeas
do cavalo louco em que estou montada?

...

Quem tem fome não teme.
Quem tem medo não come.

Segunda-feira, Março 26, 2012

O MURO



Um muro é uma pele
e tem poros;

minúsculas passagens,
emaranhados de vias
que levam ao avesso da rua
e a íntimos vãos.

Na corrente sanguínea
do muro circula
a matéria esquecida.

Um muro
é mais que um muro:
é a porta de um segredo.




Poemas e fotos que integraram a Ação Poética realizada na comunidade Solar do Unhão, no dia 25 de março. 

O MURO 2



Alguém quer

implodir o muro
com as dinamites
do desejo;

tornar em estilhaços
os limites invisíveis;

lançar os pedregulhos
contra o óbvio da cidade;

construir uma trilha
entre a calçada e os sonhos;

fazer do muro
uma passagem
pro imprevisto.

O MURO 3



Saiba no muro
a mina.

Os diamantes
que o muro guarda
estão vivos
e só têm valor
pra quem anda nu.

O MURO 4




Alguém quer

atravessar o muro
com dedos ultra-sônicos;

esquadrinhar órgãos
e linfas
por trás da argamassa;

escavar no concreto
um corpo pulsante;

achar no muro o embrião.

O MURO 5



O muro é um coral
na cidade:

organismo vivo
desenhado no oceano
de concreto.

Quem mergulha
na profundeza
desse mar urbano
chega aqui.

Seremos peixes andarilhos
deslizando nos labirintos
da arquitetura imersa.

O MURO 6


Um muro é o que separa
dois corpos espaciais.

Entre dois corpos
há muitas divisas,
também muitas pontes.

É entre as margens
que se criam os laços.

Todo muro é incompleto
e penetrável.

Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012

TELEPÁTICOS

_ O que fazer nesta tarde do mundo sem fim?
_ Há ilhas, há trilhas, mas estamos cheios de tédio no meio da tarde bonita.
_ A cor do céu mudou com o verão; está tudo claro e sujo.
_ Viver é difícil e nós também não somos fáceis.
_ Não sei se é cedo ou tarde, mas parece que esse não é o tempo em que estejamos juntos.
_ Nós vamos ficar distantes.
_ Afinal, o mundo é grande.
_ Maior será o esquecimento.

Segunda-feira, Fevereiro 13, 2012



Ilustração: Vânia Medeiros



Cabelos espalhados pelo chão,
dentes e ossos que se quebram
e resistirão, alquebrados,
como prova cabal do fim.
Uma carne que resfria e esquenta,
restos e mais restos,
sombras e sombras,
disso sou feita,
e por que na noite tremo
com medo de um vulto qualquer?
Reconhecer-me no espelho
antepassada e prisioneira
de uma eternidade inexorável,
a qual tento louvar
sem deixar de estremecer,
faz dos meus dias
uma corrida ofegante
pela invisível esteira
instalada em meu pânico.
Um dia ainda gritarei
para os seres assombrosos
desta casa, desta cidade,
“está em mim a mãe dos abismos,
a morta e desesperada,
são vocês que tem que correr!”.
Um dia, me lanço no precipício
de minha própria noite
como uma coruja de lânguido canto
e espanto todos as idéias
apodrecidas e pegajosas
que se espalham
por meus pensamentos
e tentam me espantar de mim.
Um dia, abro os braços
para a morta que me habita
e declaro vigorosamente,
unindo meu timbre
à sua garganta fria,
“a roda gira e é chegada a hora
de lembrar e ser:
acorda e vive!”