Sunday, November 01, 2009

LUNÁRIO

Para Daniel Guerra
Ilustração: Vânia Medeiros


O que nasce da terra
sou Eu.
O que a terra seca,
aterra e desterra.

Pelo vinco sagrado,
desenterro-me
sob o palácio estrelado,
aterrorizado.

Sou teu filho, Estrondo.
Sou teu filho, Espanto.
Sou teu filho, Luz.

Nasci do mistério
e estranho tudo.
Mas floresço
e sei.

Friday, October 30, 2009

MATIZ

Ilustração: Vânia Medeiros


Em meu altar invisível,
santa, puta, louca
e qualquer outra
olham por mim.

Não há notícia nisto
e firmemente sigo a risca
o rito incompreendido
de ser ave e ser mulher.

Umas, no firmamento,
brilham e gritam
que não desistamos.

Descobre teu peito, Ana,
e ama,
sem bondade e com
violência...
Corpo e luz e raio.

Ainda que te odeiem, ama,
ainda que te prendam, ama
ainda que te deixem.

Que esta é a herança
das estrelas
e nossa rebeldia.

Saturday, October 24, 2009

FLAMA

Ilustração: Vânia Medeiros



Eu sei a cor dos infernos.

É nítida pra mim a boca enorme do universo
pronta pra me devorar.
Abrigo vertigens, ânsias, tormentos.
Sinto o rufar de meu peito transtornando
minhas entranhas, insone.
Percorro a rota das estrelas, o séquito das almas,
o definhar da carne.
Chego a antever chegadas e partidas
dos portais celestiais.
Não sei de haver-me outra sentença
que não, à frente, essa fogueira...

Que venha, então, meu inquisidor,
e ardamos.

Monday, October 12, 2009

DOMINGO

Ilustração: Vânia Medeiros


Vejo passar Maria,
Alzira, Altair.
Vejo a avó, a mãe,
a filha.
Vejo a ave, Avé,
Maria.
Passam todos
pouco a pouco.
De uns, resta
a obra, o nome,
a história.
Dos meus,
a memória,
o ensinamento.
De todo passo,
um movimento.
Resta em tudo
qualquer coisa.
E não resta
outra coisa,
nem matéria
nem sentido,
que não vida.
Passaredo.

MARIA GENI

Ilustração: Vânia Medeiros

Minha vó tinha nove filhos e uma butique
e, certa feita, saiu no jornal da cidade.
Catava meus piolhos da infância
e me dizia que rezasse a São José, meu padroeiro.
Outro dia, me deu uma bíblia amarelada, pediu que eu lesse;
na dedicatória, escreveu ser presente dela e de meu avô,
que nem cheguei a conhecer.
Minha vó era viúva e paraibana,
mas morava em Conquista desde sempre
e, desde que existo, na casa 8,
que tempos depois ganhou uma cor azul.
Numa tarde, em delírio, viu varais em meus cabelos,
falou de homem com lascívia e pediu que lhe servissem
um bocadinho de cocô para o almoço.
Em tudo via gosto minha vó.
Nunca chorou pitanga, nem juntou amargura,
no entanto, não deixava que uma réstia de dor passasse
sem ser devidamente observada e dissolvida.
Quando eu lhe dizia te amo, ela assentia sem atavio,
que amor se conta é com fato e modo,
mas isto em tempo eu aprenderia.
Beata cumpridora,
poder-se-ia esperar um legado de fé cega e boas maneiras.
Antes, porém, minha vó deixou-me
faca amolada e bons desejos,
coisas de terra e liberdade
para esta vida-bela-guerra.

Thursday, October 01, 2009

Diálogos com O Cavaleiro de Fogo

http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/2009/10/sangue-novo-raica-bomfim.html
http://jivmcavaleirodefogo.blogspot.com/2009/10/tres-poemas-de-raica-bomfim.html

Sunday, September 20, 2009

PRECE

A lua clara
O mar imenso
O resto é silêncio

Friday, September 18, 2009

ESTRÉIA

Pra quem estiver em Salvador...


"Vamos, Bacantes! Vamos! Celebrai!"

Tuesday, September 01, 2009

DORMENTE

Ilustração: Vânia Medeiros


Numa madrugada de ano novo,
tomada de saudades e delírio,
pedi piedade aos deuses,
não me deixem enlouquecer,
mesmo sendo de paixão,
não há alma pra tanta fome,
amenizem-me.
Todo o magma da Terra
fumegava em meu peito,
onde o sono ou a sanidade?
Dopada por algum deus,
pudesse ser Hipnos ou Tânatos,
adormeci finalmente.
Acordei amena e sã,
meu pedido atendido,
amena, sã e só.
Vulcões também dormem,
cinzas, calmantes, mas é sempre
de magma o seio do seio,
onde a seta que eu não vejo?
Nessas novas madrugadas,
sofro de precipícios, terremotos,
cruezas, sufocamento...
Deuses que há,
(não sei pedir o que preciso,
compreendam minha pequenez,
a ignorância que me cabe,
não ouçam o que eu digo,
mas o vão por traz do dito)
não me deixem enlouquecer,
não assim de solidão,
não há boca pra tanta alma,
ascendam-me.

Friday, August 21, 2009

PONTE

a Seu Pitico
Ilustração: Vânia Medeiros


abismo, amor, poço fundo é risco
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
derrame o que seja, veja o que veja
me alcance a vertigem, o medo, e inflame
que o nosso destino, amor, é ponte
e estamos no meio, no veio, ao meio.

abismo, amor, diante do abismo
todo medo é o mesmo, a morte, a queda
no entanto o destino, amor, é ponte
infinitaponte de pau e ferro,
não é sina, é sangue, coisa viva à vista
me alcance a vertigem e inflame

seja pleno o passo, presente, pungente
estados em tempo, derrame o que seja,
veja o que veja, não é romantismo,
é método, emenda, é sobrevivência;
liturgia mister, não é sina, é sangue,
coisa viva à vista

abismo e sigo, angústia e alegria
que o que em mim não é amor, é covardia