temendo, sonhas,
que nos queimará.


Ilustração: Vânia Medeiros
Ilustração: Vânia Medeiros
Eu sei a cor dos infernos.
É nítida pra mim a boca enorme do universo
pronta pra me devorar.
Abrigo vertigens, ânsias, tormentos.
Sinto o rufar de meu peito transtornando
minhas entranhas, insone.
Percorro a rota das estrelas, o séquito das almas,
o definhar da carne.
Chego a antever chegadas e partidas
dos portais celestiais.
Não sei de haver-me outra sentença
que não, à frente, essa fogueira...
Que venha, então, meu inquisidor,
e ardamos.
Ilustração: Vânia Medeiros
Ilustração: Vânia MedeirosMinha vó tinha nove filhos e uma butique
e, certa feita, saiu no jornal da cidade.
Catava meus piolhos da infância
e me dizia que rezasse a São José, meu padroeiro.
Outro dia, me deu uma bíblia amarelada, pediu que eu lesse;
na dedicatória, escreveu ser presente dela e de meu avô,
que nem cheguei a conhecer.
Minha vó era viúva e paraibana,
mas morava em Conquista desde sempre
e, desde que existo, na casa 8,
que tempos depois ganhou uma cor azul.
Numa tarde, em delírio, viu varais em meus cabelos,
falou de homem com lascívia e pediu que lhe servissem
um bocadinho de cocô para o almoço.
Em tudo via gosto minha vó.
Nunca chorou pitanga, nem juntou amargura,
no entanto, não deixava que uma réstia de dor passasse
sem ser devidamente observada e dissolvida.
Quando eu lhe dizia te amo, ela assentia sem atavio,
que amor se conta é com fato e modo,
mas isto em tempo eu aprenderia.
Beata cumpridora,
poder-se-ia esperar um legado de fé cega e boas maneiras.
Antes, porém, minha vó deixou-me
faca amolada e bons desejos,
coisas de terra e liberdade
para esta vida-bela-guerra.